Se o fênix é a ave do fogo, do sobrenatural, do renascimento. Se ele habita o dia, se voa até as altas montanhas. Enfim se ele é a representação das coisas do coração. Eu, o morcego, sou o seu contrário.
Primeiro, meu mundo é completamente diferente...
Aqui onde moro só vejo o que os meus olhos dizem ver. Vejo rochas, vermes e outros iguais a mim.
É bem verdade que dentro de mim também há um coração, mas no meu caso ele é apenas de carne e sangue, nada mais que isso.
O dia não me agrada, a sua claridade é muito forte para meus olhos, por isso sou da noite e é nela que voô em busca de alimento.
Para aqueles que ainda não entenderam, explico: minha vida é governada pela razão. Para muitos isso é motivo de assombro, para mim é completamente natural.
Meu cérebro funciona assim, e não adianta me forçarem a acreditar que viver como o fênix é possível. Para dizer a verdade, apesar de muito se ouvir falar dele, eu nunca o vi na caverna. Tenho para mim que ele é apenas um mito, uma estória de um cérebro muito delirante. Ainda bem que a minha mente não se deixa levar por qualquer coisa e exerce perfeitamente bem as suas funções cognitivas.
Sempre estou questionando, perguntando, querendo saber mais e mais. Tenho uma curiosidade visceral. Talvez seja esse meu jeito que tenha me salvado, me resgatado do pior mal que pode acontecer a qualquer ser, cair nas mãos da ignorância. Sim, esse é o pior mal. Imagine você estando a caminho da morte e não saber, simplesmente por falta de conhecimento. Mal, grande mal é este.
Quando eu voô a noite, além de buscar alimento, eu procuro observar a natureza, pois para mim os mistérios da vida estão nela e conhecendo mais da natureza, saberei mais da vida, e mais de mim, afinal eu também faço parte da natureza.
É bem verdade que procurar respostas durante a noite reserva muitos perigos. Eu mesmo já escapei de ser abatido por outros animais, mas isso não me intimida. Maior é minha vontade de saber. E ainda que nessa busca por conhecimento eu acabe sendo mastigado vivo, parando no estômago de algum carnívoro, ainda assim, por simplesmte saber que vivi, já me sinto muito satisfeito.
E uma última coisa a dizer, parte de mim tem inveja do fênix, mas não pense que é por sua imortalidade, não isso não me interessa. Invejo a sua solidão. É que aprender com a solidão é uma tarefa muito ardua para qualquer um.
Como gostaria de ser companheiro da solidão. Sei que ela tem muito a me ensinar...
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