Sim eu sou confuso. Principalmente, quando se trata de falar das coisas que se passam no coração. Por que todos tem um, certo? Bem tenho certeza que nem sempre é assim; há pessoas que já tiveram e hoje estão ocas no peito. Eu mesmo sou um exemplo do que falo, o meu foi arrancado e até hoje eu não o encontro em lugar nenhum. Imagino que por eu dizer isso, você pense logo que eu seja um descrente no amor; muito pelo contrário, eu acredito nele, presente na vida dos outros, é bem verdade, mas acredito! E minha explicação para tudo isso é simples, eu estou fechado, sem querer correr riscos, frustrações, dores de amor.
Mas depois de tantos anos assim, não sei mais se quero continuar isolado, trancafiado. Vejo que tenho ficado mal humarado, não por eu ser ranzinza, muito pelo contrário sou um eterno otimista e sou capaz de ser feliz com coisas simples da vida. Só não suporto a obsessão que os outros têm em sempre querer que você esteja com alguém, sim eu não aguento as afirmações das pessoas que dizem que a tristeza e a solidão são companheiras daqueles que não amam. Essas palavras me deixam raivoso, inquieto e, por vezes angustiado. Pois essa mania de controle que muitos seres humanos têm (mania de que todos tenham o mesmo destino, a mesma vida) não me desce, e não consegue me moldar, já que eu me fiz ser diferente. Mas em todo caso, há em minha mente a indagação se isso não é o mau, que carrega todo aquele que decidiu não amar: ser sempre interpretado e julgado de forma errada pelos outros. Engraçado, mesmo passando por tudo isso, ainda assim prefiro ser considerado um cão raivoso, depressivo, do que me submeter a tantas coisas que são necessárias quando se ama.
Sim eu já amei, muito por sinal. Eu era só paixão a muito tempo atrás, antes de muitos me conhecerem como sou hoje. Antigamente eu poderia ser resumido àquele tipo de pessoa que se apaixona facilmente, sem nenhum esforço. Mas neste aspecto, realmente as coisas mudaram e hoje é preciso muito mais do que isso. É necessário que eu tenha um coração, porque como eu disse ele foi arrancado. Não pense que foi alguém que pisou ele, não foi isso. Foi eu mesmo que o arranquei. Sou oco, no peito! O estranho de tudo isso... é a minha frieza, essa sim é a dor que eu carrego e ela eu não surporto. Esse tipo de dor é demais para qualquer um, e ela está em mim, porque quando você decide arrancar o seu coração, na verdade seu peito não fica vázio, ele é preenchido, embora seja aos poucos e imperseptívelmente, pela frieza da indiferença. E quando menos se espera, todo o seu interior já foi completado por esse veneno. Você então deixa de ter sentimentos por outrem. E não sentir, por mais paradoxo que pareça, é doloroso demais. E essa dor eu estou cansado de ter e nenhum ser humano foi feito para tê-la eternamente dentro de si.
Só resta agora eu ir atrás do meu coração, e pior, num faço idéia de onde ele esteja. Encontrá-lo será tarefa muito ardua para mim, pois eu já estava acostuamado a certa superioridade por não amar. Sim você se senti muito superior, aos outros, quando não ama. É a superioridade da liberdade, afinal você vai para onde quer, com quem quer, faz o que quer, na hora que quizer, bom demais isso!!! É bem verdade que essa sensação de plena liberdade é passageira, mesmo que ela dure anos, um dia ela passa e quando isso ocorre só restará marcas tão profundas quanto o amor, só com um detalhe, estas doem muito mais do que o amor não correspondido.
Para evitar tanto sofrimento, penso seriamente em mudar e realmente passar a procurar o meu coração. Agora, e se ele não estiver mais em mim? Porque veja bem, eu simplesmente larguei ele por ai; não sei onde, se em mim ou não. E se eu tiver que procurá-lo em outro coração? Será? Bem... se isso acontecer lasquei-me, porque como alguém vai se interessar por um sujeito confuso assim; que diz que já amou demais, mas depois deixou isso de amar para lá e que agora pretende voltar atrás, para procurar algo que já teve em abundância e simplesmente hoje não tem mais.
Realmente é confuso demais, mas olhando por ai parece ter muita gente igual a mim, que amaram, deixaram de amar e agora querem voltar atrás.
P.S: Quando falo de amor, me refiro a enamorar-me, foi está parte do coração que arranquei a muito tempo. Essa é a mais pura verdade.
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