Caminhava vagarosamente, preferia prolongar o tempo, porque sentia algo diferente, uma sensação de desconforto, como se seus temores começacem a ganhar vida, fechou os olhos ao chegar no colégio e curso para relembrar dos anos felizes do passado, dos amigos que agora estavam presente apenas na lembrança e guardados no coração. Estava onde não queria, foi lançado em um ambiente onde todos eram tão diferentes, sentia que não tocaria ninguém ali. Sensação totalmente diferente daquela quando chegou para cursar a segunda série, num colégio tão gigantesco que cabia apenas em seus sonhos, e por estranho que pareça ele já tinha sonhado com aquele enorme terraço coberto com telhas avermelhadas, com aquelas crianças correndo, brincando e com os pais se despedindo dos filhos. Naquele momento sentia a estranhesa desse novo ambiente e o fascínio por isso, tinha para si que viveria dias incríveis naquele lugar, o seu colégio. Ouviu uma música, ela indicava que os alunos deveriam formar a fila, acabou achando o seu lugar nela, ainda com os receios por se encontrar em um lugar diferente, foi seguindo o caminho dos que estavam a sua frente, passou por corredores, chegou a sala, ela era ampla, tinha janelas grandes que se abriam para um jardim, procurou uma cadeira para se sentar. A primeira aula já não recorda mais, apesar de se esforçar para isso, no entanto, algo ainda resiste ao tempo e permanece nele, as lembrança do pátio, mesma aquela do seu primeiro dia, está viva.
Era uma tarde ensolarada, meados de fevereiro de 1989, quando por volta das 15:30h toca para o seu intevalo, todos saem correndo, empurrando cadeiras e quem estivesse a frente, todos queriam cada segundo para aproveitar as brincadeiras de futebol, de tica, de queimada, de corrida, todos eramos crianças, que ao olharem uma pessoa de 20 anos exclamavamos: nossa, velha demais!!! Foi chegando ao recreio, as algazarras ficavam mais fortes, passou pelo portão, viu do seu lado uma capela, e algumas meninas, que com suas bonecas, fantasiavam uma casa e familia. Caminhando, passou por outro portão, viu crianças que corriam, pulavam e faziam de tudo um pouco de criança, viu um terraço amplo e um grande espaço que era completamente calçado, onde tinha árvores enormes; se encantou pelos "pés-de-jambo", pela pitombeira, pelo saputizeiro do qual nunca experimento do fruto, andando descobriu um ginásio e que ao fundo do recreio havia uma quadra, onde nos anos seguintes descobriria que não nasceu para fazer educação física.
Naquela época, fazer amigos era fácil, porque simplesmente ele já chegava conversando, não com todos é verdade, só se aproximava daqueles dos quais pudesse se sentir confiante e livre, fez grandes amizades, umas das quais levaria para sempre dentro de si. Fez inimizades também, mas como nunca gostou de briga, evitava as desavenças, quando possível, e já que nem sempre fazemos o que queremos, teve que se defender de algumas situações. Com o passar dos anos, seu colégio, não era apenas o lugar de livros e professores, era a sua vida. Lá se aventurou por corredores escuros, dava susto nas meninas, fez a brincadeira do copo e um pacto de sangue, atirou paus e pedras para derrubar jambos, por menores que fossem, ou para acertar um cacho de pitomba, viu uma coruja sendo morta simplesmente por ser coruja, se apaixonou pela segunda, tercera e quarta vez, e não foi correspondido, viu os seus hormônios o enlouquecerem, correu atrás de meninas, levou carreiras delas, jogava "sete-cortes", amava queimada, teve a mente suja de um garoto, falou putarias e mais putarias, fez uma grande amizade com uma menina. Não se lembra como aconteceu, mas sabe que de todas as coisas que se passaram no seu colégio, a maior delas foi ter feito essa amizade, por causa dela sua vida foi marcada.
Mal sabia que o lugar de tantas experiências ficaria no passado de forma abrupta. No período de férias, foi dado a notícia, você estudará em um novo lugar, num colégio e curso. Sentiu a perda, e com ela uma dor diferente, como se parte do seu coração tivesse sido tirado. E agora se perguntava, como será o futuro, na realidade preferia não pensar nisso, queria deixar acontecer, numa tentativa de aliviar sua dor, a de está impedido de pelo menos dizer um oi aos seus amigos e a sua alma, já que não havia celular, internet e telefone, ainda era um artigo de luxo. Descobriu que não tinha como se aproximar, como rever, como matar a saudade que gritava. O tempo deixou de ser seu amigo, porque sua passagem representava a luta contra a morte das lembranças vivas, esse constante reviver de sentimentos e emoções, que alegravam durante o breve instante do sonho, logo depois se revertia na dolorosa "ausência da presença", e tinha que ser assim, porque não queria deixar passar nada, mesmo esse estranho prazer na dor do tempo.
O lugar das experiências mudou, o colégio e curso, onde estava agora pela primeira vez, não tinha espaço para transições, você tinha que está pronto, lá não tinha pré-adolescentes, todos já eram jovens vividos, experientes em festas, bares, folias e nos prazeres da carne. Ainda assim, pareciam comuns, teve essa impressão e isso era confirmado continuamente. Cursou da 7ª série ao 1° ano entre essas pessoas, sempre mais velhas e experientes. Pouca coisa carrega desse período, fez apenas colegas, se já era observador e meticuloso em fazer amizades, isso cresceu assustadoramente nele, a ponto de conversar com muito poucos e, se sentir a vontade, apenas com uma e outra pessoa. Foi um tempo estranho, não sentia vida, estava apenas seguindo um ritmo desconhecido, julgava assim, porque estava ali não por ele, e sim pela vontade alheia que o prendia, tinha que estudar, só não percebeu que poderia ter exposto suas dificuldades, de modo que pudesse encontrar um outro colégio e curso, um que o fizesse experienciar novamente suas lembranças imortais, do menino e da menina juntos. Alguns refúgios foram eregidos, para não sucumbir ao desconforto de estar num lugar que nunca teve como seu, dentre eles, teve sua rua e seu bairro, mas isso é um outro tempo e uma outra história, que iguais as outras foi escrita e redigida tantas vezes, que surpreende aqueles que não acreditam na capacidade de reinvenção do homem.
Com o passar dos anos, a vida havia se tornado um ir e vir, sem sentido, de amigos. Carregava dentro de si inumeras despedidas, muitas surpresas aconteceram, é verdade, pessoas especiais que estiveram com ele em diversos momentos, fossem alegres ou tristes. De todas, uma continuava viva desde o tempo infanti do seu colégio. E contrariando o ditado: "com o tempo tudo se cura", sua saudade não queria ser curada, preferia a ferida aberta, ela significava a presença, mesmo que estivesse guardada no coração. Já crescido ouvia Chico, e um trecho de uma de suas músicas sempre chamava a atenção: "_Mas se o destino insistir em nos separar. Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas. Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos. Profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Se dane o evangelho e todos os orixás. Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz". E ouvindo perguntava-se, pode o homem encontrar alguém, cujo destino é complementamente desconhecido? Apegava-se a letra e dizia danem-se tudo o que diz não como resposta. E foi assim, ainda que sonhando, que decidiu seguir sua vida e fazer do tempo seu amigo, permitindo que ele ensinasse sua sabedoria, do ir e vir, que passamos uns pelos outros e, ainda assim, permanecemos como uma imagem construída, e que ela pode ter tanta força em nós, de modo que o tempo não é capaz de descastá-la.
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