sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A metáfora do tempo - Dois meninos e a vida

Muitas horas, muitos dias, muitos meses, sim, já havia se passado muito tempo. Procurando o que fazer, encontrou velhos textos que trouxeram a memória antigas lembranças, todas guardadas no seu baú. Numa dessas leituras, a imagem de uma garoto veio surgindo, e ao contrário de outros momentos, ela não falava mais, antes, era apenas a recordação de um ensinamento, ou seja, aqueles contornos não pertenciam a pessoa alguma, assemelhavam-se a um registro de dados bibliográficos, que ao serem lidos remontavam a sua própria experiência com a vida, e que, somente agora, percebia a importância de tê-los guardados a tanto tempo. Do que se lembrava afinal? De algo tão comum e simples que relutamos com toda a nossa força para que não aconteça. Lembravasse de que tudo se transforma. Nada absolutamente nada escapa a isso, a semente morre e nasce a planta, estrelas colapsiam para gerarem partículas elementares de planetas e estrelas, flores mucham para dar lugar a novas sementes, o mar avança e regride, existe dias e noites, montanhas se formam onde há vales, picos desgastam-se nas mais profundas depressões, até mesmo o insondável coração do homem, ainda que este seja enrigecido, oscila e muda, tira lições, cai e aprende com erros. Sabia disso de ouvir falar, até que a vida decidiu fazê-lo experimentar as mais profundas dores que qualquer mudança exige, porque toda transformação pede renúncia, e sempre será pedido abrir mão de algo que queremos e almejamos com o coração, a conclusão que se chega é que isto é um processo doloroso, arracamos nosso bico, penas e garras, assim como as águias, para podermos resurgir com o novo. Mas e quando o novo não vêm, não por culpa sua, mas sim porque em algumas situações o processo é compartilhado, por exemplo como a construção de uma amizade, todos sabem que para qualquer relacionamento é necessário os dois caminharem, e sim isso pode ser doloroso, porque pode implicar em sérias transformações, disso se lembrava bem, porque já tinha entrado num caminho desses onde são preciso dois para trilharem, nunca um, por ser muito difícil, no entanto, ao entrar ele estava só, apesar de todas as juras de que seriam amigos, os dois meninos não estavam mais juntos, um ficou e o outro foi, a história narrada é do que foi, a história de alguém que já teve forte apreço por alguém, ja perguntaram você já amou alguém, sempre nega, diz não, no fundo há um silêncio, uma incógnita, um talvez sim deveria ser a resposta, mas até então, nunca foi revelado nada. Disso que experimentou gerou uma chama: a da transformação, ele trilhou o caminho de dois sozinho, a bem da verdade, ele queria sentir, ao chegar no fim da jornada, a manifestação de uma amizade verdadeira, isso não conseguiu, antes nele mesmo só havia o esquecimento, mas algo bom aconteceu, ao chegar do outro lado viu que o coração pode ter direções diferentes e sentimentos profundos podem ter diferentes tons. E se ele permitiu isso aconteçer, outros podem também.

O caminho é de dois, você não sabe, mas eu estou aqui, mesmo desapercebidamente eu caminho com você, e estou torcendo por você, ainda que eu também erre na minha trilhada.

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