segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Curta metáfora da estrela



Um rasgo cintilante é visto no céu, era uma estrela que se estardalhava luminescentemente. Sorrisos contemplam o seu cadente brilho, sem perceberem que aquele momento era uma despedida. Extasiados estavam com a beleza da morte, todos, ele mesmo se sentia embreagado com o estranho espetáculo de destruição da estrela. Ela se esfacelava em fogo e seus minguantes fragmentos anunciavam que nessa vida tudo é passagem. Os seus expectadores aquietaram-se, já não havia mais o que obeservar no céu, ela já não existia como corpo cintilante, embora imperceptível, dela restaram pequenas partículas que se agregarão a outras tão minúsculas quanto as dela para mostrar que tudo nesta vida é passagem até mesmo a morte, e que até mesmo a despedida pode ser o lugar do encontro.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Trevas e sabedoria

Nesse caótico mundo de idas e vindas, de encontros e desencontros, de relações líquidas, de efemeridades, ele se tornou um atento caminhante. Acolheu o que traziam a ele, ainda que fossem mentiras, ilusões, enganos. Recebeu tudo e não retribuiu, apenas seguiu correndo, e correu intensamente fugindo de qualquer rasgo de luz, esmerou-se por penetrar em mundos sombrios e frios procurando ardilosamente por outros, que iguais a ele, queriam uma rápida noite de desejos deliberadamente apreciados e devorados, e que iguais a ele, vázios, deveriam acordar para assim cotidianamente buscarem outros e o ciclo se manter. Tudo feito com muita atenção por que a roda não poderia ser quebrada, caso contrário, o responsável seria exilado das trevas. E naquele momento a escuridão era seu lugar secreto. Mantinha-se estático para permanecer ali, percorrendo cada ruela daquela cidade escurecida. Tinha necessidade de conhecer seus cidadãos notívagos, experimentar as suas vivências passageiras. Entendia que sua vida também seria muito breve, e apenas andando com aqueles de mesmo entendimento é que ele poderia crescer em sabedoria. Sempre repetia essa palavra em suas meditações: sabedoria, como achá-la? Essa sempre era a sua fome. Andando nas trevas ele podia ouvir sussurros que diziam: ela está aqui, ela sempre esteve aqui junto a todos esses andarilhos errantes da noite. Ele começava a ver que cada um carregava um pouco dela, mesmo os amantes de passageiros momentos, ou os que precisavavam do êxtase psicodélico, ou tantos outros incompreendidos e estigmatizados. Todos a tinham em alguma medida, e ele buscava beber esse pouco encontrado nesses outros, por isso, no tempo chamado hoje, ele estendia seus braços a todos e recebia de todos tudo, sem exigir nada em troca, mas tão somente que deixassem beber essa líquida parte que escorre dos homens, as suas escuras torpesas e iniquidades, para ele a experiência de se sentir vivo e de fazer os demais se sentirem vivos era o mais importante, embora muitas vezes isso requerece seduzir a morte para brincar com ela. Deve ser por isso que alguém cantava: piedade Senhor dessa gente careta e covarde. Quem teme a morte não poderá viver. E ele tremia diante dessas palavras, ele era medroso, mas estava ali, desafiando essa inimiga dos homens.

Sorriu por perceber sabedoria nas suas trevas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Suas mentiras, suas verdades, suas loucuras.

Se corrompeu. Enlaçado por mentiras, vive. Brinca de saber quem engana quem. Tem consciência que se engana. E faz isso como tentativa de guardar uma pessoa, acreditando que poderão ser felizes, no futuro, apenas no futuro. Mas qual oráculo proferiu tais palavras? Nenhum. Apenas um enganoso conselheiro: o coração. E são dois mentirosos, o meu e o teu coração. 

Eu não sei você, mas eu me deixo enganar. E se você se deixa, eu não sei se é por mim que você quer se perder. Existe mais pessoas na jogada. A minha pergunta incessante é: por quem você quer se perder? Não sei se esperarei a resposta ser pronunciada.

Meus dias são impacientes, ansiedades me consomem a alma. Sou um homem doente. E para a minha cura é necessário um sacríficio. A faca já está posta em minha mão. Ofertarei o meu órgão pulsante para a ausência. Vázio sobreviverei, assim como tantas vezes no meu passado. E você será uma sombra, uma neblina que passou. Teu cheiro, teu beijo já não existirão em mim. Na realidade isso são mentiras.

Eu estou numa maldita escuridão que me embebeda com incertezas. Você se sente perdido? Eu me sinto. Por isso eu grito. E o mais difícil para mim é saber que você não pode me ouvir. Entre mim e ti há tantos abismos. E eu só vejo você do outro lado. Por isso eu grito.

A ressonante pergunta reverbera: o que eu sou hoje? Sou um homem enlouquecido com uma faca na mão e um falso conselheiro, e nós andamos no escuro. Essa é a verdade. Essa é a verdade.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Qual será a maior violência?

Qual será a maior violência? Privar a liberdade? De outrem? A nossa?
Qual será a maior violência? A que outros fazem a nós? A que cometemos a nós mesmos?
Qual será a maior violência?  Aquela que mutila o corpo? Aquela que amargura o coração? Aquela que enlouquece a razão?
Qual será a maior violência? A solidão?
Qual será a maior violência? A perda da felicidade? A falta de paz? Não amar?



segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Dramático

Podemos nos encontrar? A resposta foi o silêncio. Como bom entendedor, soube o que isso significava, ainda assim, permanecia inquieto. Saber e aceitar são coisas distintas para o coração. Entendia. Seus defeitos cardíacos estavam todos aparentes. Ansiedade. Impaciência. Possessividade. Era capaz de descrever minuciosamente. Esmiuçava compulsiva-obsessivamente seu complicado órgão pulsante. Tentativas de desamar nós, eram feitas. Procurava a catarse do personagem inventado. Queria se desvenciliar das suas criações pela via mais dramática. Colocar cada palavra sentida diante da sua figura. Gritando. Vertendo. Sangrando. Perder-se desta forma, adiantaria? Friamente se reorganizava. Tendões tensos relaxavam. Uma quietude inquietante o envolvia. Flashes entorpecedores. Novamente. Novamente. Novamente. Turbilhonamento de sensações. Despedida e presença o confudem. Alegria e tristeza se fundem. Louco. Segue em frente. Apenas segue. O caminho já conhece. Para disfarçar colocou uma máscara de alegria. Sorri. Sorri. Sorri. Não sabe até quando. Realmente não sabe.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Melhor escrever

Melhor escrever. O que exatamente? Não sabe. Está sem versos, prosas, está só. Na realidade, ele tem alguém, só não quer admitir. Por que está pessoa existe apenas para ele, mas não se engane com essas palavras, achando ser um caso de esquizofrenia. Me refiro a alguém de carne e ossos. Já se encontraram e se apaixonaram. E como tantas outras vezes, tudo durou a brevidade de um encontro. Como algo tão efêmero pode trazer tantas lembranças, se perguntava. Sentia. Não são memórias que emergem, são vázios que espreitam, ocos enormes que pulsam, tentáculos de nada que se estendem... para onde, por quem? Você. Existe. Resiste. Permanece. Aqui. Os pontos foram colocados paradoxalmente como uma continuação de nossa história. Foi você mesmo que disse: a nossa 'relação' terá o desfeicho que nós decidirmos. Recordava. O medo não foi a pimenta dos encontros. Lembrava. O perigo é o estímulo dos amantes - rapidinhas fazem parte da trama -. Lastimava. O medo foi a morte. Veneno. Amargo. Intragável. Apenas um bebeu, e alguém terá ido ao seu funeral? A outra parte vive a medida do possível sem outra parte que possui uma outra parte. Partidos foram os laços. Sem despedidas. Você. Existe. Resiste. Permanece. Aqui. A morte não te tragou de mim. Tuas cinzas eu carrego. Qual melhor jeito de se fazer isso? Lançá-las ao vento ou guardá-las no meu jardim... A resposta é o silêncio. Você deu essa resposta. Silêncio. Mentira. Eu minto. Restam ecos. Ressonantes sons do passado continuam. Uma voz. Um sorriso. Um rosto. Permanecem intactos. Suspira. Há uma imagem reticente, insistente, ausente. Melhor. Ele inventou um outro para ele. Esta é sua história. Poema-prosa de pontos finais.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Seus impossíveis amores

Saia mais uma vez de casa, apesar do cansaço, seu sangue corria acelerado, e a noite o assediava, fraco não resistiu, fez as ligações de sempre e foi. Ansioso, chegou mais cedo que os demais, teve que fica esperando. Então você chegou, nossos olhos se encontraram. Algo diferente em mim aconteceu, eu quis permanecer te olhando. Meus amigos chegaram e você se aproximou. Tive que falar com eles. E dentro de mim eu dizia fique, fique, não vá. Você nos acampanhou e eu estava sem jeito, chegando ao bar você se apresentou, e eu me alegrei. Nos beijamos e, diferentemente, eu quis me deixar ser decifrado. Você falava coisas que eu não entendia, eu ficava rindo. Tivemos que nos despedir logo,  mas a noite realmente tinha valido, só por sua causa.

Amanhecia mais uma vez, e despertando, seu primeiro pensamento era voltado para as estranhas palavras que aquela pessoa havia falado, e elas ressoavam dentro dele e ele as repetia tentando aprender o que elas diziam. Sabia que algo diferente havia acontecido, por que as palavras permaneciam. Sentia-se um bobo por guarda-las, mas mesmo assim as guardou.

Se passaram mais alguns dias. Foram se encontrar. Tinham o mar, a brisa, uma música, uma estrela, e novamente um ao outro. Você havia preparado tudo. E eu sorria.

Eu sorria para você, mas dentro de mim, eu ja gotejava, uma gota que não caiu diante dos teus olhos, mas vertia em mim, eu mostrei a minha felicidadade, mas ela não é duradoura, ela é exatamente, o mesmo tempo que você cantou as nossas músicas ao meu ouvido. E eu sorria, por que fingia para mim que você não estava indo embora, quando na realidade estava. E eu sei que você não queria ir, apenas precisa ir. E eu dizia na vida não temos tudo o que queremos, e dentro de mim eu gotejava, por que essas palavras se voltavam contra mim mesmo. E eu sorria diante dos teus olhos. E eu sorria dentro dos teus olhos.

Hoje, eu ouço nossa música aqui sozinho em minha casa. E eu daqui de casa te procuro como posso, já que eu não posso te ligar. Confesso que por causa disso já estou quebrando o nosso trato de deixarmos as coisas seguirem naturalmente o rumo, me desculpe, eu tenho minhas fraquezas e elas gritam, não consigo contê-las e eu acabo gritando também para não enlouquecer.

Me desnudei, eu precisar dizer que estou aqui, me desculpe. E não se preocupe vamos contuar naturalmente seguindo o rumo das coisas.


Continua...



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sua metalinguagem

Textos que buscam a poética do sentimento, da emoção, do coração frio e quente. Palavras desenroladas para tocar o outro de forma diferente, não querem atingir a razão, nem a lógica, muto menos o entendimento. Elas desejam ser apenas cor, cheiro, sabor, som. E se quiserem misturar o azedo sabor com o grave som, mistura-se. Se liquidificarem todos os sentidos numa massa aquosa, assim será feito. Sim a loucura governa este lugar. E neste mundo louco um pouco mais dela é sempre bem-vinda. Desprender-se de amarras métricas, de versos fechados com rimas programadas. Prosas detalhadas, explicadas exaustivamente, articuladas por excessos de pontuação, aborrecem. As suas únicas companheiras são a coesão e a coerêcia, e mesmo elas bebem esse vinho que tudo turva e embaralha. A sua linguagem não quer ser decifrada-codificada. Sempre se lembra que em um mundo de holofotes, ela quer voltar ao que é simples.

Há coisa mais simples do que tocar o outro?

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O lago

Numa noite em uma cidade cinzenta cortada por luzes, sons de buzinas e sirenes, a fumaça de fuligem era quem coloria em tons avermelhados as pesadas nuvens, e quem olhasse viria fogo no céu, não havia ninguém. Prédios, viadutos, avenidas, carros e caminhões eram mais importantes. Continuar apressadamente o passo era mais importante. E olhar para cima era perda de tempo, parar um segundo era tempo demais. Viver é se atrasar e assim permaneciam.

Naquela noite, um de seus moradores foi ao lago mais gelado, profundo e negro, despiu-se nas suas margens e passo-a-passo foi entrando na gelada água que nunca congelava. A cidade cinzenta tinha enigmas e lugares inusitados, seus próprios segredos que ningém decifrava, o lago era um deles. Moradores temiam sua água negra e fria, diziam uns aos outros, já vi pássaros pousarem no lago e terem suas patinhas e penas envolvidas em pequenos cristais de gelo. A verdade é que preferiam o medo do que desmistificarem os segredos da cidade. As águas do lago nunca se solidificavam, as dos demais sim, no inverno petrificavam, ele não, permanecia friamente líquido, e naquela noite de lua cheia e de neblina misturada com fumaça, a luz refletida criava desenhos tortuosos, dissolvidos, escorregadios, amorfos.

Nesse lago assombroso ele decidiu mergulhar nu, a noite estava gelada, os pêlos do corpo completamente ouriçados pelo vento, ele adentrava as águas, seu corpo frio pouco a pouco sentia o toque frio da água e seu sangue frio esfriava na água fria, e já totalmente imerso, seus olhos contemplavam apenas um estranho brilho azul penetrando o lago e a medida que os raios azulados desciam, ele percebia um degrade de cores que iam do azul-neon ao negro. Fascinado estava, envolto a silenciosa água, olhando para o profundo desconhecido, foi tomado por uma epifânia. Sentia que era o desconhecido que procurava. Apaziguado descia acompanhando aquela estranha luminescência, que o guiava para o fundo negro do lago, e antes de poder tocá-lo, decidiu olhar  para cima e assombrou-se, as águas estavam cristalinas, podia ver as vermelhas nuvens no céu, podia ver a imensa lua dourada brilhando e rompendo a cidade cinzenta. Olhou e uma lágrima verteu, ela não se misturou com a água do lago, a lágrima era quente demais, ela foi subindo e se transformando numa poeira que cintilava como as estrelas.

Aquietou-se e quieto tocou o fundo do lago, e ele viu que o fundo do lago era brilhante como o Sol.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Pesado

O peso do corpo sobre o outro, não há mais quem queira. Um sobre o outro é apenas peso, nada além disso. É levar uma carga suada, molhada, ofegante, escorregadia. E todo esse peso é pesado demais para está apenas sobre uma pessoa.

Cansados estão todos os corpos do peso que já carregam,
Se perguntam, do porquê levar outro peso?

Por isso, os cansados corpos querem sentir o peso de muitos corpos simultaneamente.
Por que?
O peso do corpo quer a leveza do vento para ser livre do apego, e assim, libertar-se do cansaço da despedida.

O peso do corpo quer ser suor na pele, vapor nas bocas. Ele não quer mais ser a líquida lágrima, ele quer ser o líquido gozo, seja demorado ou rápido, mas sobretudo, passageiro. Sim, exatamente isso, ele quer ser um líquido que se escorre de um corpo a outro, desprendidamente.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Capitulo I - Do Fenix e do seu fogo

Personificou-se como Fênix, ave mítica, por ser um sonhador arraigado aos caminhos ligados ao coração, por continuamente ir buscando transformação, ir buscando mudança, ir buscando romper com padrões-arcabouços de sua alma. Personificou-se como Fênix por acreditar demasiadamente, por querer demasiadamente, por lutar demasiadamente, ainda quando falavam não ser possível. Personificou-se como Fênix por que crê, sempre creu que seus caminhos podem ser feitos através de suas ações, de sua perseverança, de sua paciência. Personificou-se como Fênix por ver que nada é pronto, acabado, definido. Personificou-se como Fênix pelas folhas aromáticas, pelo fogo, pelo verme, pela ave, pelo voo, pelos símbolos congruentes com sua vida. Personificou-se com a chama que o chamava, que não se apagava, que sempre o vislumbrava, sempre o encantava, sempre o motivava, sempre o fazia ir. Mas nem sempre é assim, nem sempre seu fogo quer inflamar-se. Nesses dias sentia-se estranho; algo no seu interior começava a mudar, o seu fogo aquietava-se. Constrangia-se por isso, tratou de alimentá-lo, lembranças e sonhos, muitos sonhos sempre o atiçavam e vivificavam suas chamas, dessa vez elas não se agitaram, e sim, lentamente se acomodavam, tornavam-se brandas, e dos tons vermelho e laranja intensos passavam a pequenas luminescências azuladas, seu fogo interior começou a se extinguir, começou a deixar de ser vivo e forte, sabia o por quê, intimamente pouco a pouco, estava indo, pouco a pouco partia. Queria arder em preciosas labaredas, mas pelas suas poucas chamas já não podia se entregar ao seu fogo, não podia ser consumido, não podia se refazer. Seu fogo diminuía e pedia a sua ida, a sua despedida, e o que tanto o motivava agora se voltava contra ele. Seu fogo é seu tempo, seus momentos sonhados, inspirados em encontros, imagens, cheiros, sons, risos, cores, seus pequenos devaneios fantásticos, mas agora, a ampulheta do seu fogo-tempo foi virada, e agora, ela marca a ida de seus pequenos grãos, dos seus momentos sonhados inspirados em encontros, imagens, cheiros, sons, risos, cores, seus pequenos devaneios, agora, são lembranças passadas.

Com o cair dos grãos-chamas na ampulheta-tempo, o sonho começou a passar, e tudo passa a se tornar real demais para que o sonho aconteça, e agora para renovar-se, o Fênix precisa deixar seu lugar, ele precisa voar. Seu voo representa a ida, indesejada, inesperada, e vai não por desejo, não por vontade, vai pela necessidade de voltar a ter o seu fogo, o seu sonho, a sua criação, o seu tempo. Há um lugar para isso o silêncio e o abismo.

Pássaro

Pássaro raro não voe para longe

Para nunca mais voltar

Pássaro raro não quero te espantar, acredite

Quero apenas que pouse no meu ombro

Juro te deixarei, voar

Só te peço...

Não vá onde eu não possa te encontrar


Passagem

Pedem passagem, muitos

A tua ida

Teimoso sou não deixo ir

Guardo imagens, sons, cheiros

Guardo filmes, conversas, risos

Guardo tudo


Pede passagem, tu mesmo

A tua ida

Teimoso sou não deixo ir

Mesmo no silêncio, na distância, na ausência

Mesmo em lágrimas, tristezas, solidão

Guardo a saudade


Pede passagem, a vida

A tua ida

Teimoso sou não deixo ir

Vem Sol, chuva, vento

Vêm novidades que mechem com a gente

Sejam em ti: "[...] somos dois"

Ou comigo: Tudo novo de novo"

Teimoso sou. Não deixo ir?


Sabe do grão que restou

Do que guarda em si

Sabe que maior é a vida. Teme por isso.

Tem em si um lugar onde abriga o grão

Guarda ali o que é especial

Estreme ao pensar se pode perder o grão de si. Não quer

Prefere carregá-lo

É a forma encontrada para está junto, mesmo na passagem que a própria vida exige

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sentidos

Te vejo
Abro e fecho os olhos,
Repetidas vezes,
Sonho?

Procuro então tua carne, teu cheiro
Apalpo, toco
Te sinto Quente, pulsante
Excitante

E por ter tocado
Procuro mais
E por ter despertado
Quero mais

terça-feira, 5 de abril de 2011

Amor Líquido - Prefácio (BAUMAN)

"Ulrich, o herói do grande romance de Robert Musil, era — como anunciava o título da obra — Der Mann ohne Eigenschaften: o homem sem qualidades. Não tendo qualidades próprias, herdadas ou adquiridas e incorporadas, Ulrich teve de produzir por conta própria quaisquer qualidades que desejasse possuir, usando a perspicácia e a sagacidade de que era dotado; mas nenhuma delas tinha a garantia de perdurar indefinidamente num mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível.

O herói de seu livro é Der Mann ohne Verwandtschaften — o homem sem vínculos, e particularmente vínculos imutáveis como os de parentesco no tempo de Ulrich. Não tendo ligações indissolúveis e definitivas, o herói de seu livro — o cidadão de nossa líquida sociedade moderna — e seus atuais sucessores são obrigados a amarrar um ao outro, por iniciativa, habilidades e dedicação próprias, os laços que porventura pretendam usar com o restante da humanidade. Desligados, precisam conectar-se... Nenhuma das conexões que venham a preencher a lacuna deixada pelos vínculos ausentes ou obsoletos tem, contudo, a garantia da permanência. De qualquer modo, eles só precisam ser frouxamente atados, para que possam ser outra vez desfeitos, sem grandes delongas, quando os cenários mudarem — o que, na modernidade liquida, decerto ocorrerá repetidas vezes.

A misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos, é o que este livro busca esclarecer, registrar e apreender.

[...]

O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Seus personagens centrais são homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por “relacionar-se” e, no entanto desconfiados da condição de “estar ligado” em particular de estar ligado “permanentemente” para não dizer eternamente, pois temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para — sim, seu palpite está certo — relacionar-se...

Em nosso mundo de furiosa “individualização”, os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam embora em diferentes níveis de consciência. No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência. É por isso, podemos garantir, que se encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos e líquidos indivíduos-por-decreto, e no topo de sua agenda existencial.

“Relacionamento” é o assunto mais quente do momento, e aparentemente o único jogo que vale a pena, apesar de seus óbvios riscos. Alguns sociólogos, acostumados a compor teorias a partir de questionários, estatísticas e crenças baseadas no senso comum, apressam-se em concluir que seus contemporâneos estão totalmente abertos a amizades, laços, convívio, comunidade. De fato, contudo (como se seguíssemos a regra de Martin Heidegger de que as coisas só se revelam à consciência por meio da frustração que provocam — fracassando, desaparecendo, comportando-se de forma inadequada ou negando sua natureza de alguma outra forma), hoje em dia as atenções humanas tendem a se concentrar nas satisfações que esperamos obter das relações precisamente porque, de alguma forma, estas não têm sido consideradas plena e verdadeiramente satisfatórias. E, se satisfazem, o preço disso tem sido com freqüência considerado excessivo e inaceitável. Em seu famoso experimento, Miller e Dollard viram seus ratos de laboratório atingirem o auge da excitação e da agitação quando “a atração se igualou à repulsão” ou seja, quando a ameaça do choque elétrico e a promessa de comida saborosa finalmente atingiram o equilíbrio...

Não admira que os “relacionamentos” estejam entre os principais motores do atual “boom do aconselhamento”. A complexidade é densa, persistente e difícil demais para ser desfeita ou destrinchada sem auxílio. A agitação dos ratos de Miller e Dollard resultava freqüentemente na paralisia da ação. A incapacidade de escolher entre atração e repulsão, entre esperanças e temores, redundava na incapacidade de agir. De modo diferente dos ratos, os seres humanos que se vêem em tais circunstâncias podem pedir ajuda a especialistas que oferecem seus préstimos em troca de honorários. O que esperam ouvir deles é algo como a solução do problema da quadratura do círculo: comer o bolo e ao mesmo tempo conservá-lo; desfrutar das doces delícias de um relacionamento evitando, simultaneamente, seus momentos mais amargos e penosos; forçar uma relação a permitir sem desautorizar, possibilitar sem invalidar, satisfazer sem oprimir...

Os especialistas estão prontos a condescender, confiantes em que a procura por suas recomendações será infinita, uma vez que nada que digam poderá tornar um círculo não-circular, e portanto passível de ser transformado num quadrado... Suas recomendações são copiosas, embora geralmente se resumam a pouco mais do que elevar a prática comum ao nível do conhecimento comum, e daí ao status de teoria autorizada e erudita. Gratos beneficiários dessas recomendações percorrem as colunas de “relacionamento” em publicações sofisticadas e nos suplementos semanais de jornais sérios ou nem tanto, para ouvir o que queriam de pessoas que “estão por dentro” (uma vez que são tímidos ou envergonhados demais para falarem por si mesmos), para espreitar os feitos e procedimentos de “outros como eles” e conseguir o máximo conforto possível por saberem que não estão sozinhos em seus solitários esforços para enfrentar a incerteza.

E assim os leitores aprendem com a experiência de outros leitores, reciclada pelos especialistas, que é possível buscar “relacionamentos de bolso” do tipo de que se “pode dispor quando necessário” e depois tornar a guardar. Ou que os relacionamentos são como a vitamina C: em altas doses, provocam náuseas e podem prejudicar a saúde. Tal como no caso desse remédio, é preciso diluir as relações para que se possa consumi-las. Ou que os CSSs — casais semi-separados merecem louvor como “revolucionários do relacionamento que romperam a bolha sufocante dos casais”. Ou ainda que as relações, da mesma forma que os automóveis, devem passar por revisões regulares para termos certeza de que continuarão funcionando bem. No todo, o que aprendem é que o compromisso, e em particular o compromisso a longo prazo, é a maior armadilha a ser evitada no esforço por “relacionar-se”. Um especialista informa aos leitores: “Ao se comprometerem, ainda que sem entusiasmo, lembrem-se de que possivelmente estarão fechando a porta a outras possibilidades românticas talvez mais satisfatórias e completas”. Outro mostra-se ainda mais insensível: “A longo prazo, as promessas de compromisso são irrelevantes. Como outros investimentos, elas alternam períodos de alta e baixa”. E assim, se você deseja “relacionar-se”, mantenha distância; se quer usufruir do convívio, não assuma nem exija compromissos. Deixe todas as portas sempre abertas.

Se lhes perguntassem, os habitantes de Leônia, uma das cidades invisíveis de Ítalo Calvino, diriam que sua paixão é “desfrutar coisas novas e diferentes”: De fato. A cada manhã eles “vestem roupas novas em folha, tiram latas fechadas do mais recente modelo de geladeira, ouvindo jingles recém-lançados na estação de rádio mais quente do momento”. Mas a cada manhã “as sobras da Leônia de ontem aguardam pelo caminhão de lixo” e cabe indagar se a verdadeira paixão dos leonianos na verdade não seria “o prazer de expelir, descartar, limpar-se de uma impureza recorrente”. Caso contrário, por que os varredores de rua seriam “recebidos como anjos” mesmo que sua missão fosse “cercada de um silêncio respeitoso” (o que é compreensível: “ninguém quer voltar a pensar em coisas que já foram rejeitadas”)?
Pensemos...

Será que os habitantes de nosso líquido mundo moderno não são exatamente como os de Leônia, preocupados com uma coisa e falando de outra? Eles garantem que seu desejo, paixão, objetivo ou sonho é “relacionar-se”, Mas será que na verdade não estão preocupados principalmente em evitar que suas relações acabem congeladas e coaguladas? Estão mesmo procurando relacionamentos duradouros, como dizem, ou seu maior desejo é que eles sejam leves e frouxos, de tal modo que, como as riquezas de Richard Baxter, que “cairiam sobre os ombros como um manto leve” possam “ser postos de lado a qualquer momento”? Afinal, que tipo de conselho eles querem de verdade: como estabelecer um relacionamento ou — só por precaução — como rompê-lo sem dor e com a consciência limpa? Não há uma resposta fácil a essa pergunta, embora ela precise ser respondida e vá continuar sendo feita, à medida que os habitantes do líquido mundo moderno seguirem sofrendo sob o peso esmagador da mais ambivalente entre as muitas tarefas com que se defrontam no dia-a-dia.

Talvez a própria idéia de “relacionamento” contribua para essa confusão. Apesar da firmeza que caracteriza as tentativas dos infelizes caçadores de relacionamentos e seus especialistas, essa noção resiste a ser plena e verdadeiramente purgada de suas conotações perturbadoras e preocupantes. Permanece cheia de ameaças vagas e premonições sombrias; fala ao mesmo tempo dos prazeres do convívio e dos horrores da clausura. Talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando termos como “relacionar-se” e “relacionamentos” as pessoas falem cada vez mais (auxiliadas e conduzidas pelos doutos especialistas) em conexões, ou “conectar-se” e “ser conectado”. Em vez de parceiros, preferem falar em “redes”. Quais são os méritos da linguagem da “conectividade” que estariam ausentes da linguagem dos “relacionamentos”?

Diferentemente de “relações”, “parentescos”, “parcerias” e noções similares — que ressaltam o engajamento mútuo ao mesmo tempo em que silenciosamente excluem ou omitem o seu oposto, a falta de compromisso —, uma “rede” serve de matriz tanto para conectar quanto para desconectar; não é possível imaginá-la sem as duas possibilidades. Na rede, elas são escolhas igualmente legítimas, gozam do mesmo status e têm importância idêntica. Não faz sentido perguntar qual dessas atividades complementares constitui “sua essência”! A palavra “rede” sugere momentos nos quais “se está em contato” intercalados por períodos de movimentação a esmo. Nela as conexões são estabelecidas e cortadas por escolha. A hipótese de um relacionamento “indesejável, mas impossível de romper” é o que torna “relacionar-se” a coisa mais traiçoeira que se possa imaginar. Mas uma “conexão indesejável” é um paradoxo. As conexões podem ser rompidas, e o são, muito antes que se comece a detestá-las.

Elas são “relações virtuais”. Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com “compromisso” muito menos dos compromissos de longo prazo), elas parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as “possibilidades românticas” (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de “ser a mais satisfatória e a mais completa”. Diferentemente dos “relacionamentos reais” é fácil entrar e sair dos “relacionamentos virtuais”. Em comparação com a “coisa autêntica”, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: “Sempre se pode apertar a tecla de deletar”.

Como que obedecendo à lei de Gresham, as relações virtuais (rebatizadas de “conexões”) estabelecem o padrão que orienta todos os outros relacionamentos. Isso não traz felicidade aos homens e mulheres que se rendem a essa pressão; dificilmente se poderia imaginá-los mais felizes agora do que quando se envolviam nas relações pré-virtuais. Ganha-se de um lado, perde-se de outro.

Como apontou Ralph Waldo Emerson, quando se esquia sobre gelo fino, a salvação está na velocidade. Quando se é traído pela qualidade, tende-se a buscar a desforra na quantidade. Se “os compromissos são irrelevantes” quando as relações deixam de ser honestas e parece improvável que se sustentem, as pessoas se inclinam a substituir as parcerias pelas redes. Feito isso, porém, estabelecer-se fica ainda mais difícil (e adiável) do que antes — pois agora não se tem mais a habilidade que faz, ou poderia fazer, a coisa funcionar. Estar em movimento, antes um privilégio e uma conquista, torna-se uma necessidade. Manter-se em alta velocidade, antes uma aventura estimulante, vira uma tarefa cansativa. Mais importante, a desagradável incerteza e a irritante confusão, supostamente escorraçadas pela velocidade, recusam-se a sair de cena. A facilidade do desengajamento e do rompimento (a qualquer hora) não reduzem os riscos, apenas os distribuem de modo diferente, junto com as ansiedades que provocam.

Este livro é dedicado aos riscos e ansiedades de se viver junto, e separado, em nosso líquido mundo moderno."

BAUMAN, Zygmunt. AMOR LÍQUIDO: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2004. Pág. 7-13