sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Texto Secreto

A cidade - real

Estava numa sacada, chovia, e nas cinzentas nuvens recobrindo a lúgrube cidade, percorriam raios, velozes luzes cruzavam o céu, estava preste a amanhecer, do seu alto lugar via os pequenos pontos luminescentes atravessando a cidade asfaltada, na vizinhança prédios despontavam como pontas abruptas que emergiam da terra e se vangloriavam pela proximidade com os céus, seus moradores agitados pelo cotidiano de idas e vindas do trabalho à casa, da rua ao mercado, da segurança ao roubo, da proteção à bala perdida, faziam do lugar de repouso o seu momento, desfilavam seus corpos, faziam do seu lar seu santuário, mal sabiam que mesmo na privacidade das suas salas podiam ser observados por olhos lascivos de carne que buscavam a fresta de uma janela para satisfazer o sangue acelerado, a excitação da imagem alheia presa a retina do seu fetiche, mal sabiam dos ouvidos que buscavam o murmurio das palavras lidas no balbuciar dos lábios para jogarem toda sorte de caprichos aos ouvidos de famigerados pela vida dos outros.

O seu quarto - sonho

Estava chovendo e dos pingos brilhantes ficavam a boa-lembrança guardada da companhia que o acompanhava, e o tilintar da chuva na janela confundia-se com o som carregado de suor do corpo aceso pelo toque de pele na pele, provocando o ardente arrépio carregado de vapores da boca sedenta afagando o ofegar marcado do tão intenso gesto de ida e vinda, crepitando o demasiado desejo de se molhar com toda aquela chuva, que fazia do olhar o sorriso esperado de está com o corpo pesado, de coração acelerado, jogado, cansado, rente ao seu peito confortável, lavado pela água dos corpos consumados pelo gozo.

O seu olho - coração

Olha e vê o vazio que ficou. Não há mais sons. Não há chuva. Silêncio
A cidade parou. As pessoas pararam. O tempo cessou
Olha e vê o buraquinho dentro de si. Nele coloca uma fotografia. Só restaram fotos que sua retina capturou. Guarda as fotos do sorriso.
Olha e vê, há uma lágrima que não quer cair. As do seu olho já caíram, muitas. Todas? Guarda uma, não sabe porque, só sabe que guarda. Ela é a despedida. Se ela cair tudo se dissolverá. A segura, não sabe porque, só sabe que a segura.

O seu dia

Uma tranquilidade intranquila o acompanha. Seu sono também é seu assombro. Acorda antes do amanhecer. Sua mente rebonina situações, momentos, fatos. Imagina um botão no meio da sua fronte de desligamento, ele não existe, não é uma máquina, não somos. Conhece pessoas. Sorri para todos. Bebe, continua seu dia, bebe mais um pouco. Vai a praia, toma sol, ver amigos, rever amigos. Uma tranquilidade intranquila o acompanha, até quando não sabe.



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