terça-feira, 3 de maio de 2011

Capitulo I - Do Fenix e do seu fogo

Personificou-se como Fênix, ave mítica, por ser um sonhador arraigado aos caminhos ligados ao coração, por continuamente ir buscando transformação, ir buscando mudança, ir buscando romper com padrões-arcabouços de sua alma. Personificou-se como Fênix por acreditar demasiadamente, por querer demasiadamente, por lutar demasiadamente, ainda quando falavam não ser possível. Personificou-se como Fênix por que crê, sempre creu que seus caminhos podem ser feitos através de suas ações, de sua perseverança, de sua paciência. Personificou-se como Fênix por ver que nada é pronto, acabado, definido. Personificou-se como Fênix pelas folhas aromáticas, pelo fogo, pelo verme, pela ave, pelo voo, pelos símbolos congruentes com sua vida. Personificou-se com a chama que o chamava, que não se apagava, que sempre o vislumbrava, sempre o encantava, sempre o motivava, sempre o fazia ir. Mas nem sempre é assim, nem sempre seu fogo quer inflamar-se. Nesses dias sentia-se estranho; algo no seu interior começava a mudar, o seu fogo aquietava-se. Constrangia-se por isso, tratou de alimentá-lo, lembranças e sonhos, muitos sonhos sempre o atiçavam e vivificavam suas chamas, dessa vez elas não se agitaram, e sim, lentamente se acomodavam, tornavam-se brandas, e dos tons vermelho e laranja intensos passavam a pequenas luminescências azuladas, seu fogo interior começou a se extinguir, começou a deixar de ser vivo e forte, sabia o por quê, intimamente pouco a pouco, estava indo, pouco a pouco partia. Queria arder em preciosas labaredas, mas pelas suas poucas chamas já não podia se entregar ao seu fogo, não podia ser consumido, não podia se refazer. Seu fogo diminuía e pedia a sua ida, a sua despedida, e o que tanto o motivava agora se voltava contra ele. Seu fogo é seu tempo, seus momentos sonhados, inspirados em encontros, imagens, cheiros, sons, risos, cores, seus pequenos devaneios fantásticos, mas agora, a ampulheta do seu fogo-tempo foi virada, e agora, ela marca a ida de seus pequenos grãos, dos seus momentos sonhados inspirados em encontros, imagens, cheiros, sons, risos, cores, seus pequenos devaneios, agora, são lembranças passadas.

Com o cair dos grãos-chamas na ampulheta-tempo, o sonho começou a passar, e tudo passa a se tornar real demais para que o sonho aconteça, e agora para renovar-se, o Fênix precisa deixar seu lugar, ele precisa voar. Seu voo representa a ida, indesejada, inesperada, e vai não por desejo, não por vontade, vai pela necessidade de voltar a ter o seu fogo, o seu sonho, a sua criação, o seu tempo. Há um lugar para isso o silêncio e o abismo.

Pássaro

Pássaro raro não voe para longe

Para nunca mais voltar

Pássaro raro não quero te espantar, acredite

Quero apenas que pouse no meu ombro

Juro te deixarei, voar

Só te peço...

Não vá onde eu não possa te encontrar


Passagem

Pedem passagem, muitos

A tua ida

Teimoso sou não deixo ir

Guardo imagens, sons, cheiros

Guardo filmes, conversas, risos

Guardo tudo


Pede passagem, tu mesmo

A tua ida

Teimoso sou não deixo ir

Mesmo no silêncio, na distância, na ausência

Mesmo em lágrimas, tristezas, solidão

Guardo a saudade


Pede passagem, a vida

A tua ida

Teimoso sou não deixo ir

Vem Sol, chuva, vento

Vêm novidades que mechem com a gente

Sejam em ti: "[...] somos dois"

Ou comigo: Tudo novo de novo"

Teimoso sou. Não deixo ir?


Sabe do grão que restou

Do que guarda em si

Sabe que maior é a vida. Teme por isso.

Tem em si um lugar onde abriga o grão

Guarda ali o que é especial

Estreme ao pensar se pode perder o grão de si. Não quer

Prefere carregá-lo

É a forma encontrada para está junto, mesmo na passagem que a própria vida exige