Personificou-se como Fênix, ave mítica, por ser um sonhador arraigado aos caminhos ligados ao coração, por continuamente ir buscando transformação, ir buscando mudança, ir buscando romper com padrões-arcabouços de sua alma. Personificou-se como Fênix por acreditar demasiadamente, por querer demasiadamente, por lutar demasiadamente, ainda quando falavam não ser possível. Personificou-se como Fênix por que crê, sempre creu que seus caminhos podem ser feitos através de suas ações, de sua perseverança, de sua paciência. Personificou-se como Fênix por ver que nada é pronto, acabado, definido. Personificou-se como Fênix pelas folhas aromáticas, pelo fogo, pelo verme, pela ave, pelo voo, pelos símbolos congruentes com sua vida. Personificou-se com a chama que o chamava, que não se apagava, que sempre o vislumbrava, sempre o encantava, sempre o motivava, sempre o fazia ir. Mas nem sempre é assim, nem sempre seu fogo quer inflamar-se. Nesses dias sentia-se estranho; algo no seu interior começava a mudar, o seu fogo aquietava-se. Constrangia-se por isso, tratou de alimentá-lo, lembranças e sonhos, muitos sonhos sempre o atiçavam e vivificavam suas chamas, dessa vez elas não se agitaram, e sim, lentamente se acomodavam, tornavam-se brandas, e dos tons vermelho e laranja intensos passavam a pequenas luminescências azuladas, seu fogo interior começou a se extinguir, começou a deixar de ser vivo e forte, sabia o por quê, intimamente pouco a pouco, estava indo, pouco a pouco partia. Queria arder em preciosas labaredas, mas pelas suas poucas chamas já não podia se entregar ao seu fogo, não podia ser consumido, não podia se refazer. Seu fogo diminuía e pedia a sua ida, a sua despedida, e o que tanto o motivava agora se voltava contra ele. Seu fogo é seu tempo, seus momentos sonhados, inspirados em encontros, imagens, cheiros, sons, risos, cores, seus pequenos devaneios fantásticos, mas agora, a ampulheta do seu fogo-tempo foi virada, e agora, ela marca a ida de seus pequenos grãos, dos seus momentos sonhados inspirados em encontros, imagens, cheiros, sons, risos, cores, seus pequenos devaneios, agora, são lembranças passadas.
Com o cair dos grãos-chamas na ampulheta-tempo, o sonho começou a passar, e tudo passa a se tornar real demais para que o sonho aconteça, e agora para renovar-se, o Fênix precisa deixar seu lugar, ele precisa voar. Seu voo representa a ida, indesejada, inesperada, e vai não por desejo, não por vontade, vai pela necessidade de voltar a ter o seu fogo, o seu sonho, a sua criação, o seu tempo. Há um lugar para isso o silêncio e o abismo.
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