quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sua metalinguagem

Textos que buscam a poética do sentimento, da emoção, do coração frio e quente. Palavras desenroladas para tocar o outro de forma diferente, não querem atingir a razão, nem a lógica, muto menos o entendimento. Elas desejam ser apenas cor, cheiro, sabor, som. E se quiserem misturar o azedo sabor com o grave som, mistura-se. Se liquidificarem todos os sentidos numa massa aquosa, assim será feito. Sim a loucura governa este lugar. E neste mundo louco um pouco mais dela é sempre bem-vinda. Desprender-se de amarras métricas, de versos fechados com rimas programadas. Prosas detalhadas, explicadas exaustivamente, articuladas por excessos de pontuação, aborrecem. As suas únicas companheiras são a coesão e a coerêcia, e mesmo elas bebem esse vinho que tudo turva e embaralha. A sua linguagem não quer ser decifrada-codificada. Sempre se lembra que em um mundo de holofotes, ela quer voltar ao que é simples.

Há coisa mais simples do que tocar o outro?

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O lago

Numa noite em uma cidade cinzenta cortada por luzes, sons de buzinas e sirenes, a fumaça de fuligem era quem coloria em tons avermelhados as pesadas nuvens, e quem olhasse viria fogo no céu, não havia ninguém. Prédios, viadutos, avenidas, carros e caminhões eram mais importantes. Continuar apressadamente o passo era mais importante. E olhar para cima era perda de tempo, parar um segundo era tempo demais. Viver é se atrasar e assim permaneciam.

Naquela noite, um de seus moradores foi ao lago mais gelado, profundo e negro, despiu-se nas suas margens e passo-a-passo foi entrando na gelada água que nunca congelava. A cidade cinzenta tinha enigmas e lugares inusitados, seus próprios segredos que ningém decifrava, o lago era um deles. Moradores temiam sua água negra e fria, diziam uns aos outros, já vi pássaros pousarem no lago e terem suas patinhas e penas envolvidas em pequenos cristais de gelo. A verdade é que preferiam o medo do que desmistificarem os segredos da cidade. As águas do lago nunca se solidificavam, as dos demais sim, no inverno petrificavam, ele não, permanecia friamente líquido, e naquela noite de lua cheia e de neblina misturada com fumaça, a luz refletida criava desenhos tortuosos, dissolvidos, escorregadios, amorfos.

Nesse lago assombroso ele decidiu mergulhar nu, a noite estava gelada, os pêlos do corpo completamente ouriçados pelo vento, ele adentrava as águas, seu corpo frio pouco a pouco sentia o toque frio da água e seu sangue frio esfriava na água fria, e já totalmente imerso, seus olhos contemplavam apenas um estranho brilho azul penetrando o lago e a medida que os raios azulados desciam, ele percebia um degrade de cores que iam do azul-neon ao negro. Fascinado estava, envolto a silenciosa água, olhando para o profundo desconhecido, foi tomado por uma epifânia. Sentia que era o desconhecido que procurava. Apaziguado descia acompanhando aquela estranha luminescência, que o guiava para o fundo negro do lago, e antes de poder tocá-lo, decidiu olhar  para cima e assombrou-se, as águas estavam cristalinas, podia ver as vermelhas nuvens no céu, podia ver a imensa lua dourada brilhando e rompendo a cidade cinzenta. Olhou e uma lágrima verteu, ela não se misturou com a água do lago, a lágrima era quente demais, ela foi subindo e se transformando numa poeira que cintilava como as estrelas.

Aquietou-se e quieto tocou o fundo do lago, e ele viu que o fundo do lago era brilhante como o Sol.