segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Curta metáfora da estrela



Um rasgo cintilante é visto no céu, era uma estrela que se estardalhava luminescentemente. Sorrisos contemplam o seu cadente brilho, sem perceberem que aquele momento era uma despedida. Extasiados estavam com a beleza da morte, todos, ele mesmo se sentia embreagado com o estranho espetáculo de destruição da estrela. Ela se esfacelava em fogo e seus minguantes fragmentos anunciavam que nessa vida tudo é passagem. Os seus expectadores aquietaram-se, já não havia mais o que obeservar no céu, ela já não existia como corpo cintilante, embora imperceptível, dela restaram pequenas partículas que se agregarão a outras tão minúsculas quanto as dela para mostrar que tudo nesta vida é passagem até mesmo a morte, e que até mesmo a despedida pode ser o lugar do encontro.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Trevas e sabedoria

Nesse caótico mundo de idas e vindas, de encontros e desencontros, de relações líquidas, de efemeridades, ele se tornou um atento caminhante. Acolheu o que traziam a ele, ainda que fossem mentiras, ilusões, enganos. Recebeu tudo e não retribuiu, apenas seguiu correndo, e correu intensamente fugindo de qualquer rasgo de luz, esmerou-se por penetrar em mundos sombrios e frios procurando ardilosamente por outros, que iguais a ele, queriam uma rápida noite de desejos deliberadamente apreciados e devorados, e que iguais a ele, vázios, deveriam acordar para assim cotidianamente buscarem outros e o ciclo se manter. Tudo feito com muita atenção por que a roda não poderia ser quebrada, caso contrário, o responsável seria exilado das trevas. E naquele momento a escuridão era seu lugar secreto. Mantinha-se estático para permanecer ali, percorrendo cada ruela daquela cidade escurecida. Tinha necessidade de conhecer seus cidadãos notívagos, experimentar as suas vivências passageiras. Entendia que sua vida também seria muito breve, e apenas andando com aqueles de mesmo entendimento é que ele poderia crescer em sabedoria. Sempre repetia essa palavra em suas meditações: sabedoria, como achá-la? Essa sempre era a sua fome. Andando nas trevas ele podia ouvir sussurros que diziam: ela está aqui, ela sempre esteve aqui junto a todos esses andarilhos errantes da noite. Ele começava a ver que cada um carregava um pouco dela, mesmo os amantes de passageiros momentos, ou os que precisavavam do êxtase psicodélico, ou tantos outros incompreendidos e estigmatizados. Todos a tinham em alguma medida, e ele buscava beber esse pouco encontrado nesses outros, por isso, no tempo chamado hoje, ele estendia seus braços a todos e recebia de todos tudo, sem exigir nada em troca, mas tão somente que deixassem beber essa líquida parte que escorre dos homens, as suas escuras torpesas e iniquidades, para ele a experiência de se sentir vivo e de fazer os demais se sentirem vivos era o mais importante, embora muitas vezes isso requerece seduzir a morte para brincar com ela. Deve ser por isso que alguém cantava: piedade Senhor dessa gente careta e covarde. Quem teme a morte não poderá viver. E ele tremia diante dessas palavras, ele era medroso, mas estava ali, desafiando essa inimiga dos homens.

Sorriu por perceber sabedoria nas suas trevas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Suas mentiras, suas verdades, suas loucuras.

Se corrompeu. Enlaçado por mentiras, vive. Brinca de saber quem engana quem. Tem consciência que se engana. E faz isso como tentativa de guardar uma pessoa, acreditando que poderão ser felizes, no futuro, apenas no futuro. Mas qual oráculo proferiu tais palavras? Nenhum. Apenas um enganoso conselheiro: o coração. E são dois mentirosos, o meu e o teu coração. 

Eu não sei você, mas eu me deixo enganar. E se você se deixa, eu não sei se é por mim que você quer se perder. Existe mais pessoas na jogada. A minha pergunta incessante é: por quem você quer se perder? Não sei se esperarei a resposta ser pronunciada.

Meus dias são impacientes, ansiedades me consomem a alma. Sou um homem doente. E para a minha cura é necessário um sacríficio. A faca já está posta em minha mão. Ofertarei o meu órgão pulsante para a ausência. Vázio sobreviverei, assim como tantas vezes no meu passado. E você será uma sombra, uma neblina que passou. Teu cheiro, teu beijo já não existirão em mim. Na realidade isso são mentiras.

Eu estou numa maldita escuridão que me embebeda com incertezas. Você se sente perdido? Eu me sinto. Por isso eu grito. E o mais difícil para mim é saber que você não pode me ouvir. Entre mim e ti há tantos abismos. E eu só vejo você do outro lado. Por isso eu grito.

A ressonante pergunta reverbera: o que eu sou hoje? Sou um homem enlouquecido com uma faca na mão e um falso conselheiro, e nós andamos no escuro. Essa é a verdade. Essa é a verdade.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Qual será a maior violência?

Qual será a maior violência? Privar a liberdade? De outrem? A nossa?
Qual será a maior violência? A que outros fazem a nós? A que cometemos a nós mesmos?
Qual será a maior violência?  Aquela que mutila o corpo? Aquela que amargura o coração? Aquela que enlouquece a razão?
Qual será a maior violência? A solidão?
Qual será a maior violência? A perda da felicidade? A falta de paz? Não amar?