sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Trevas e sabedoria

Nesse caótico mundo de idas e vindas, de encontros e desencontros, de relações líquidas, de efemeridades, ele se tornou um atento caminhante. Acolheu o que traziam a ele, ainda que fossem mentiras, ilusões, enganos. Recebeu tudo e não retribuiu, apenas seguiu correndo, e correu intensamente fugindo de qualquer rasgo de luz, esmerou-se por penetrar em mundos sombrios e frios procurando ardilosamente por outros, que iguais a ele, queriam uma rápida noite de desejos deliberadamente apreciados e devorados, e que iguais a ele, vázios, deveriam acordar para assim cotidianamente buscarem outros e o ciclo se manter. Tudo feito com muita atenção por que a roda não poderia ser quebrada, caso contrário, o responsável seria exilado das trevas. E naquele momento a escuridão era seu lugar secreto. Mantinha-se estático para permanecer ali, percorrendo cada ruela daquela cidade escurecida. Tinha necessidade de conhecer seus cidadãos notívagos, experimentar as suas vivências passageiras. Entendia que sua vida também seria muito breve, e apenas andando com aqueles de mesmo entendimento é que ele poderia crescer em sabedoria. Sempre repetia essa palavra em suas meditações: sabedoria, como achá-la? Essa sempre era a sua fome. Andando nas trevas ele podia ouvir sussurros que diziam: ela está aqui, ela sempre esteve aqui junto a todos esses andarilhos errantes da noite. Ele começava a ver que cada um carregava um pouco dela, mesmo os amantes de passageiros momentos, ou os que precisavavam do êxtase psicodélico, ou tantos outros incompreendidos e estigmatizados. Todos a tinham em alguma medida, e ele buscava beber esse pouco encontrado nesses outros, por isso, no tempo chamado hoje, ele estendia seus braços a todos e recebia de todos tudo, sem exigir nada em troca, mas tão somente que deixassem beber essa líquida parte que escorre dos homens, as suas escuras torpesas e iniquidades, para ele a experiência de se sentir vivo e de fazer os demais se sentirem vivos era o mais importante, embora muitas vezes isso requerece seduzir a morte para brincar com ela. Deve ser por isso que alguém cantava: piedade Senhor dessa gente careta e covarde. Quem teme a morte não poderá viver. E ele tremia diante dessas palavras, ele era medroso, mas estava ali, desafiando essa inimiga dos homens.

Sorriu por perceber sabedoria nas suas trevas.

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