sexta-feira, 16 de maio de 2008

O Fênix: entre Kandahar e Shortbus existe uma caverna

Há um lugar onde as pessoas são elas mesmas. Lá não existe certo ou errado, nem pecado e salvação. Dor, somente quando a pessoa se perde na sua própria existência, não discernindo suas próprias escolhas e por isso não reconhecendo sua própria vida, mas ainda assim, se esta pessoa fizer o esforço de olhar para si, a tal ponto de reconhecer seus caminhos e passar a vivê-los de livre ânimo, ela não sentirá mais dor. Este lugar é Shortbus. Mas aqui na caverna do Fênix não é assim, por isso ele quer ir até Shortbus, no entanto, não pode fazer isso ainda.

Ir para tal lugar é como renunciar por completo a sua imortalidade, é abandonar a sua força interior de renascimento, é optar por morrer. [O Fênix ao contrário do que muitos pensam pode morrer, se caso ele desejar assim o fazer]

Mas ele se perguntava: _ Será tão ruim viver assim como um mortal? Eles não parecem infelizes por completo, pelo contrário, os vejo sorrir com uma alegria vinda do coração.

Esses pensamentos que invadiam a sua mente traziam desconforto a sua alma e até mesmo dores, porque de certa forma ele já se encontrava mais perto de Shortbus do que dos céus de Kandahar, onde era o seu lugar, pois a caverna onde ele habitava no momento era um local de transição entre a sua antiga morada e o lugar dos mortais.

Morar na caverna é mais difícil do que os outros pensam, não pelo aspecto úmido, escuro e rochoso, é porque aqui é lugar de ninguém. Como disse é apenas uma transição entre dois mundo bem distintos. Nem todos sabem, mais o reino habitado pelo Fênix é governado por um sistema de conduta considerado rígido para quem não conhece sua essência. No entanto, para qualquer Fênix é bastante prazeroso viver assim, pelo menos até o momento em que a sua alma não seja desgastada pelo mesmo erro, continuamente pelo mesmo erro. Já diziam os sábios persistir no erro é burrice, para um Fênix é morte certa. [A verdadeira razão disto quem sabe será revelada em outro momento]

Há, no entanto, um lugar onde ele pode ir vivendo com relativa paz, tendo um única certeza a de poder escolher a sua vida. A caverna é este local. Mas todos os Fênix que recorrem a ela só tem dois destinos: ou retornam para a Kandahar, ou vão a caminho de Shortbus, nunca ninguém habitou nela, mas agora alguém decidiu ser o primeiro. Por incrivél que pareça, tal decisão não é por medo ou dúvida, é tão somente falta de forças para decidir se retorna ou se prossegue ao destino final.

Neste caso em particular, há um desgaste profundo na alma do Fênix ocasionado por inúmeras idas e vindas a Shortbus, sim exatamente isso, o Fênix já esteve lá, e ja retornou incontavéis vezes, tantas que nem consegue enumerá-las. Já agora não tem forças suficiente para ir seja à Kandahar ou à Shortbus.

E o por que de tanta fraquesa é devido a existência de duas vozes dentro dele, uma diz retorne, a outra prossiga. Ambas são fortes, ambas enchem a sua mente, e por mais estranho que pareça isso começou a ocorrer justamente quando o Fênix já se preparava em alçar vôo rumo a Shortbus, sim ele havia decidido morrer vivendo nesta cidade. E quando tudo nele incitava-o a sair e ir rumo a liberdade, justamente, neste momento, ele ouviu dentro de si uma voz, que dizia NÃO!!! Ela foi tão intensa que imediatamente ele desistiu de ir para Shortbus. Essa voz violenta como uma tempestade tinha saído do seu coração. Isso trouxe muito espanto, pois qualquer Fênix que decide ir para Shortbus, tem que antes arrancar o seu coração, o centro do seu poder de renascimento, da sua imortalidade. Então ele se perguntava como, como ainda posso ouvir o meu coração, como, ele ainda é tão forte a ponto de me paralizar e me impedir de prosseguir à Shortbus.

Então ele fechou os olhos e recuou, decidiu por enquanto ficar na caverna, para ver até quando a voz do seu coração persistiria em dizer não. Já cansado de esperar, acabou adormecendo e ao acordar percebeu que nada havia mudado, continuava no mesmo lugar, a caverna.

Não se sabe ao cero se o Fênix morreu na caverna, se retornou para Kandahar ou foi pra Shortbus, tudo o que se tem certeza é que ele queria viver e, embora estivesse na caverna, buscava isso incessantemente em seus sonhos, e por sonhar tanto quem sabe, não tenha renascido.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Outra vida, e a dificil tarefa de recomeçar

Nunca foi minha intenção, nem mesmo nos meus pesadelos se passaram tal situação.
Hoje pela primeira vez reconheci que eu queria ter outra vida, uma com mais realizações pessoais, com maior contentamento, enfim, diferente da que tenho agora. Eu queria ter a vida dos outros. É isso, somente agora, reconheço que vi a vida dos demais e que no âmago do meu ser, se passou um suspiro: _Poxa... gostaria que a minha vida fosse assim.

Como se não bastasse esse difícil reconhecimento de si próprio, ainda a um outro obstáculo a ser superado, que é o julgamento alheio, pois é comum dizerem que se alguém aos 30 anos deseja ter outra vida, é porque este errou na sua trajetória rumo ao sucesso, e a palavra destes é tão forte que a pessoa passa a se ver como alguém que teve insucesso, ou seja, como um derrotado. [Enfim tudo coopera para você ficar down]

Mas há em minha mente um pensamento que sempre se passa, que é o de mudança, de buscar por uma transformação, porque eu sempre acreditei que nunca é tarde para recomeçar. Embora, de uns tempos pra cá tem sido bem difícil continuar firme nesta crença. Fico pensando no que me deixou resistente ao querer recomeçar. As respostas, felizmente desta vez, são bem claras.

Todo recomeço é uma trajetória em busca de erros, frustrações e derrotas. De início tudo parece contraditório e sem sentido. Sei que todos pensam que recomeçar é ir em busca de algo novo e diferente, isto é verdade, mas para isso acontecer, é necessário antes deixar para trás todo lixo. Por isso devemos ir atrás dos erros, estejam onde estiverem, pois assim podemos reconhecê-los e deixá-los definitivamente no passado.

Reconhecer o próprio erro não é tarefa fácil. Para alguns é totalmente impossível. Mas de todos os meus males, o orgulho nunca se despontou nem como um alfinte, talvez por isso, eu seja capaz de olhar, ver e dizer quais os meus erros. No entanto fazer isso não é suficiente, até porque ao ver suas próprias frustrações cara-a-cara, é comum a pessoa ser tomada por sentimentos derrotistas e de fracasso total, por isso é importante ter sempre por perto um suporte para a alma, seja a fé, uma pessoa, um sentimento, um pensamento que dê ânimo, que seja forte suficiente para você sair rumo ao recomeço.

E hoje, é justamente esse suporte para a alma que procuro, sim... algo que nos meus momentos de fraquesa me dê vontade de prosseguir e que me faça agir recomeçando a vida. No meu passado era fácil olhar para dentro de mim e não me perder em visões demaseadamente assombrosas e turvas sobre mim mesmo, tudo porque naquela época eu sempre recorria a um socorro sempre presente e capaz de me salvar das mais terriveis crises existenciais. Eu recorria aos Céus. Hoje eu só tenho a mim mesmo, agora só me resta olhar para dentro de mim e tirar de mim mesmo as respostas, a força, a orientação. Bem acredito que isso é totalmente possível, até porque existem outros por ai que assim procedem e conseguem sair sozinhos das mais terríveis situações. E se eles conseguem, eu também lutarei para conseguir.

Embora eu me encontre sem tanta fé assim, ainda assim resta-me algum fólego que me faz apegar-me a crença do recomeço e do renascer, e que me faz olhar para os Céus e acreditar que é posssível...

Enfim o Fênix ainda não morreu...