quarta-feira, 31 de março de 2010

" A alma boa de Setsuan e a bondade"

"A alma boa de Setsuan trata-se de um texto de Brecht escrito nos anos 40 e que agora toma lugar em uma Montagem de Marcos Antônio Braz [...].

O enredo começa quando os deuses vêm à Terra a fim de encontrar uma alma boa. Acreditam eles que no nosso mundo isto está tornando-se cada vez mais raro, o que é, logicamente (?), preocupante. Na montagem em questão os deuses são apresentados de forma cômica e descompromissada de uma figura religiosa no sentido institucional.

Ao chegarem à província de Setsuan, procuram um lugar para pernoitar e não encontram, a princípio, ninguém que os acolha, confirmando suas suspeitas iniciais de que os homens tornaram-se egoístas e incapazes de dividir. Já quase desistindo, porém, deparam-se com Chen Tê, a prostituta da cidade, que lhes dá um lugar para dormir deixando assim, para isto, de atender a um cliente. Convencidos de que se trata este de um inquestionável e incomum caso de generosidade desinteressada, os deuses oferecem à moça uma alta quantia em dinheiro. Feliz com seu prêmio, Chen Tê deixa de ser prostituta e abre uma tabacaria, no intento de mudar de vida

Aí começam os conflitos. O povo da cidade, antes acostumado a vê-la como uma mulher pouco digna de respeito, agora quer sua ajuda. Vendo que ela se encontra numa situação diferenciada, em que está provida de uma série de recursos, vão até ela pedindo abrigo, comida, favores. A índole boa de Chen Tê a impede de negar. Sempre disponível, ela atende a todos que a solicitam, metendo, assim, em palavras simples, os pés pelas mãos.

Numa situação limite, decide então compor uma persona falsa. Inventa um primo, veste-se de homem, engrossa a voz, e reveza-se entre este personagem e ela mesma. Como o primo Chui Tá, a ex-prostituta consegue, disfarçada, ter a dureza que em sua forma tradicional é incapaz de demonstrar. Nega, exige direitos, e, em último caso, torna-se mesmo antiética e revela capacidade para os atos maus.

[...]

A questão ética que o belíssimo texto de Brecht levanta é a da bondade e generosidade, não em seu aspecto mais óbvio e clichê, mas sim discutindo a liberdade que se tem ou não em ser bom e generoso e a viabilidade destas virtudes no mundo real e moderno. Será possível ser bom num mundo em que se passa fome? E, acima de tudo, qual é o tamanho da fome que justifica cruzar o limite da ética? A resposta pretendida por Brecht, ao que parece, é positiva, mas não ingênua.
A generosidade, embora um valor indiscutivelmente louvável, deve ser acrescida de firmeza. Sim, a gentileza deve ser firme para que possa sustentar-se e, em ação, promover produtos e não perdas.

Aquele que é gentil e que compromete assim sua própria integridade, acaba por desistir da bondade ou perder sua capacidade material e psic,ológica de exercê-la. Dando tudo e ficando, consequentemente, desprovido de recursos, o gentil torna-se inútil até para si mesmo, além de promover a manutenção perversa das relações de ingratidão e abuso. O que consegue ser gentil, porém firme, pode, no entanto, continuar exercendo generosidade sem que para isso precise dar mais do que tem, ou ainda, o que é importante, do que quer dar.

Falar em alguém bom, ou pior, bonzinho, é quase um desrespeito. A bondade perdeu seu valor social há muito tempo, quando em lugar do gentil passou a ser valorizado o truculento. Aquele que se apresenta socialmente como bom é frequentemente visto como fraco, quando não bobo. A ele não se defere respeito, porque, em detrimento da bondade, prefere-se respeitar o que desperta medo, o que ameaça.

Assim, um empregador, por exemplo, quando conhece sua equipe de trabalho, seus funcionários, terá mais chance de êxito, aparentemente, se demonstrar dureza em vez de docilidade. A dúvida que fica é: precisa ser assim? Será que não seríamos todos coniventes com isso, no movimento de respeitar quem ameaça e abusar do que oferece, tornando a bondade quase impraticável?

É possível que seja simplesmente uma escolha. De exercício diário e difícil, é verdade, mas exequível e real quando intencionado. O segredo talvez resida em não ter medo de ser gentil e, em consequência, ser abusado. O medo da velha história de estender a mão e ver arrancado o braço. Não será possível estender a mão, firme, sólida, generosa, e, ao mesmo tempo, se necessário for, impor sua necessidade de respeito e a integridade do tal braço, que, neste momento, não pode ser doado?

É provável que o limite seja tênue e que um elemento imponha-se no caminho; o narcisismo do bom. É comum que aquele que faz bondades não possa aceitar ser rejeitado, decepcionar e, assim, quem sabe, despertar ódio e frustração. Mais comum ainda é que esta necessidade de prover ao outro e ser pelo outro visto como um verdadeiro redentor implique em uma falta de capacidade de prover a si mesmo.

A resposta para a pergunta de "o que justifica a falta de ética?" pode ser tudo ou nada. Por isso, pensar diariamente nas escolhas, sobretudo naquelas que concernem às relações, é uma prática de caráter e sabedoria. Deve haver, acredito, um equilíbrio saudável. O que não parece possível é dar sequência a um estilo de vida, aparentemente o vigente, em que a bondade torna-se rara e desvalorizada, e não seja mais pretensão de ninguém. "O mundo é dos espertos". Será?

Por último, é interessante lembrar que ser bom não consiste em atos grandiloquentes de esforços homéricos. Trata-se apenas, muitas vezes, de disponibilidade. Estar disponível para o outro é já uma ação coerente com o fato de que vivemos num mesmo espaço e tempo."


P.S: Texto retirado do site digestivo cultural.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Suas cores

Leu sobre cores, encantou-se. Perguntou onde estariam as suas. Umas, nos quadros de Pollock, no seu experimentalismo com a forma e técnica de pintura, na sua ânsia de romper com padrões antigos, buscando não apenas algo novo, mas aquilo que lhe era próprio, fazia isso, jogando pingos irregulares, escorrendo tinta aos montes, passeando de bicicleta nas telas, usando corpos e partes de corpos como pincéis, e tantos outros materiais. Tudo era caótico, mas dali saiu uma ordem, a sua. Outras, pertenceriam aos mares, rios, cachoeiras e porque não aos abismos de William Turner. Sua água, céu e atmosfera possuem essas cores, fortes e brilhantes. Se não conhecem vejam, Veneza, Pescadores e o Mar, caso não se apaixonem entenderei, cada qual tem seus tons, os meus evocam a emoção da alma. E tantas, com certeza, estariam no jardim de Monet. É incrivelmente fascinado por tudo que há nele. Pontes, vitórias-régias, flores, lagos, os degrades de violetas, laranjas, amarelos, verdes, tudo ali é como seu jardim cultivado secretamente, por pinceladas soltas. Tudo é movimento, chegada e despedida, caminham juntos, quase lado a lado. Por que falar disso agora? Por isso fazer partes das suas cores. Apenas isso e nada mais. Não fugiria de Botero, antes seria mais um de seus gordinhos. Disseram isso é imobilismo, nego. Para mim é autenticidade.

E Frida? Todos a amam. É? Ele não. Nunca gostou daquelas sobrancelhas emendadas, de seu paletó, de suas colunas e entranhas expostas, de seus cordões umbilicais. Foi execredado. Entendeu sua falta de sensibilidade. Foi então conhecê-la. Admirou sua história e simbologia. Continua desgostando dos seus quadros, não todos, verdade. E uma coisa é certa, hoje, seria um dos amantes de Frida Kahlo, com todo o peso que Milan Kundera da à palavra peso. Sem restrições.

É um arco-íris impressionista-expressionista. Surpresa! Por essas palavras, estranheza deve ser o tom ressoado nos tímpanos daqueles que o conhecem. Certo e quem tem legitimidade para dizer que conhece alguém? Se “toda pessoa é labirinto” e mais “[...] toda pessoa tem cantos aonde ninguém vai. Nem mesmo a própria pessoa.” Se compreendem, dirão que fiz uma simples revelação, e nada mais. Ao que chegamos? Mostramos partes de nós. Damos um sim, escondemos um não, vice-versa lógico. Presenteamos uns aos outros com incertezas. E caminhamos juntos, ainda assim.

Ah! Meu Deus e eu que falava de cores, já estou questionando a visão dos outros ao meu respeito. Tudo bem, faz parte, questionar-se, ser questionado e questionar a todos. Pensou agora no que pensam dele. Seria ele interpretado como uma linha, um gráfico, um jogo de formas geométricas, com medidas e formas exatas, assim pura e simplesmente, sem nenhuma tonalidade, nem mesmo em variações de cinza? Sabe que se negarem suas cores, tiram dele sua alma. Bem verdade que ele pode ocultá-las, se desejar, mas só faz isso aos estranhos.

Têm cores, não como as pertencentes ao Renascimento. Dar perfeição é desumanizar seu ser. No entanto, aprecia as notas da nudez exposta em Caravaggio e outros. Não entendem, chamem os filósofos, os psicólogos. Por falar em filósofo, é quase um existencialista, mas Sartre por que você foi matar Deus, por quê? Só por isso sou em parte contigo, precisamente na responsabilidade. Sim, as tão bem faladas escolhas que fazemos, arcarei com todas, espero. Mas você falou que eu era livre. Ia biologia, onde ficam os genes? Vá dizer que estão presentes apenas para dar forma e função aos corpos? Discordo. Não, eu não sou positivista. E agora como sair desse emaranhado? Lembrei da condição humana, das necessidades de estar no mundo, de lutar, de viver com os outros e da nossa finitude. Desculpe o tom. Volto a Sartre, reconheço. Nesse tempo, do homem líquido, de relativismo e suspensão do sujeito, é importante ter um porto-seguro, você mesmo, e que se comunique com outros. Acredita na dialética e paquera com a complexidade.

A sua aquarela, seu quadro, sua paleta estão incompletos. Ainda se intrometerá em outras cores. Do que falava mesmo? De arte, do seu estado de arte. É aprendiz.

domingo, 14 de março de 2010

Brincando...

Brincando com as palavras, fez disso não um hobby, é muito mais forte, no mínimo uma catarse, chega em alguns momentos a uma epifania. Já perguntaram a ele, para quem escreve, sempre responde, para ninguém, e é verdade, mesmo quando fala de histórias, o seu discurso se restringe a sua biografia, àquilo que foi incorporado a sua vida, ainda que tenha sido uma simples conversa de bar, que no exato momento em que foi ouvida, deixou de ser propriedade do outro, passando a ser sua também. Tudo aqui tem apenas um destinatário, ele próprio. Tanto que no começo, erros ortográficos permaneciam inalterados nos seus textos, acreditava que deveria deixar a palavra pura, porque retrataria sua emoção real, sua humanidade. Mudou o pensamento, é mais criterioso hoje, procura evitar os erros, mas continua preso a sua consciência que diz você é humano errará inevitalmente. Escreve também por uma necessidade visceral de desabafar, de expor seus sentimentos mesmo quando eles revelam sua fragilidade, não teme falar de si, o que o aflige de verdade é o silêncio da alma, e por também inquietar-se com silêncios intermináveis é que palavras começam a surgir, e pensar que o início deste pequeno ofício de redigir-se surgiu por uma raiva, incrivelmente somos pegos de surpresa com tesouros escondidos em nós e o estranho é reconhecê-lo a partir da erupção da furia, de fato escondemos muito de nós mesmos, mas a vida é hábil em nos revelar quem somos na essência. Hoje, sorri pelo que faz com singeleza e desprentenciosamente, por prosseguir nesta sua obra.

terça-feira, 9 de março de 2010

Baú

Baú de lembranças, novas e velhas, todas guardadas, algumas até seladas para nunca mais revivê-las. Já lançau nele amizades, amores, lugares, o passado. Inesperadamente um ou outro sai e ocupa o lugar de outrora, mesmo que brevemente, da mesma maneira repentina, tudo o que é solído e estável pode ser abrigado nele como uma história que foi e não é mais.

Do que há nele, uma desperta medo e curiosidade, Pândora! Acredita que cada um leva dentro de si essa caixinha misteriosa, a sua é encrustada de brilhantes, dos quais sua vista deve passar longe, o vislumbre já é suficiente para evocar Pândora. Nesses dias por conspiração do destino precisou ir ao baú, foi um momento duvidoso, ele teria que abrir a caixinha. Do mito conhecia as consequências se resolvessse tomar essa atitude, da sua realidade já havia provado do veneno de Pândora, tanto sorveu que descobriu algo incoberto, existe um imunizante, a razão. Ela é um baluarte seguro quando necessitamos de serenidade, bem verdade, muitas vezes a sua força é mostrada a partir da incisão da perdar, do distanciamento, do deixar partir, do ponto final sem lugar algum para reticências. Abrigou-se na sua razão e abriu a caixa, precisava fazer isso, Pândora era seu vício e sua vingança, e pelo pouco tempo que ficariam juntos sabia que os antígenos dela não o agrederiam, por isso foi.

O formulado é tudo acontecer como uma soma matemática, início-meio-fim, pronto. Isso é o que diz a razão e fala por ser forte. Faltava um detalhe nessa álgebra, antes de abrir a caixa era preciso vasculhar o baú, ela também era um de seus pertences, e nele há tudo, o registro do corpo e a memória da alma estão lá, tocá-los equivale a revivê-los. Ao calcular desapercebeu-se, entramos inteiros, e para sairmos iguais como entramos temos que ser por inteiros fortes e não em partes, pois o fraco não resiste o encontro, ele cai.
Não caiu, apesar de ter sido tentado, se inclinou sim, revelou sua fraqueza camuflada, esticou os braços contorcidamente querendo uma indicação, não houve resposta, caiu, veio a razão e lhe recobrou o juízo. Encatamentos o perseguiram, mas não o alcançaram, ele quis ser atingido, queria experimentar o suscinto devaneio do coração, porque já esteve preso a ilusões desejosas, gosta de sentia-se perigosamente vivo, é de atirar-se a precipicios, tem asas. Não fez! Foi forte, de alguma maneira e assim pretende permanecer, apesar de sentir os calafrios fruto da boa lembrança.