quinta-feira, 15 de abril de 2010

Segue

Mergulha numa imensidão ainda desconhecida, entra e penetra em si mesmo, buscando sabedoria, não uma qualquer, quer encontrar aquela rara e difícil de ser percebida, que fala não para si, mas justamente, almeja o outro, tocá-lo, atraí-lo, tê-lo bem próximo, uma que mesmo sendo um pequeno brilhante equivale a muitos tesouros. Esse é seu esforço, o seu caminho. Sabe onde ela habita, não na razão, por esta ser fria e calculista, diferente do calor que a move, o seu lugar é o coração. Terreno incerto, solto, onde passos descuidados podem por tudo a perder, é lá onde se encontra a sabedoria. Não teme esse perigo, antes se lançou para encontrá-la, sente que é necessário tê-la para conseguir ter êxito no seu próposito, o que pode angustiá-lo é o não discernimento das muitas vozes que aparecem neste caminho, precisa apurar seus ouvidos. Pergunta-se como? Calma, paciência e perseverança são as respostas encontradas. Tranquiliza-se ao ter consciência disto. É um ansioso. Quer agora mesmo. Não pôde, está impedido. No entanto, viu um relampejo que trouxe entendimento, não permita a lembrança morrer, cultive-a de forma singela e doce, seja como um sobro ao pescoço, seja a mão suave que alisa a pele, seja o carinho que fica e marca, permaneça. De repente, as incertezas, transformaram-se num terreno firme, não menos perigoso é verdade, mas este gera confiança. E assim, seguindo sua íntima inspiração começa a seguir, sabe que pode deparar-se com um final inesperado, mas ouviu " a felicidade é o caminho trilhado". E tem sido assim, não desistiu, segue em busca da sabedoria do coração.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vida breve

Noite alegre, com luzes, num beco de samba, suor e folia. Numa rua estreita, dessas que misturam gente boêmia, desavergonhada e sem medo de misturas, com cheiros exóticos, casarões antigos, vias escuras. Onde corre a alegria, conversas e risos soltos, em meio a beijos quentes e mãos gulosas. Surgem, de repente, passos ligeiros que cortam o chão, vozes assombradas, cadeiras que serviam para acomodar encontros, são levantadas rapidamente, e o desejo de fuga nasce como resposta para o medo repentino. Olhando de relance para a esquina via-se tumulto, gente desnorteada, mãos que se separavam na multidão, um grito corta a todos e gela a espinha, na alma dos outros um suspense, olhos voltavam-se para trás buscando ver o que não queriam ver, vermelha já era a aguá, mistura a cerveja e urina da sarjeta, foi tingida de sangue, que de tão certeiro, o tiro, foi direto ao coração. Se perguntavam como pode ser tão rápida a vida, estava agora mesmo conosco, levantava seu copo para brindar sua noite de carnaval, em especial, porque desta vez estava solto e livre, daquele jeito que falam que o diabo gosta. Do prazer veio o assombro, por saber que ali não era qualquer um, era seu amigo, o melhor. Momentos antes, estava com uma negra, de rabo apetitoso, e entre gemidos, um sonido corta o tão esperado gozo. Não sabia porque mais parou com as bem-aventuradas safadezas. Reconheceu o som. Correu. Chegou ao local e não acreditava nos seus olhos, que a blusa branca de reveillon, aquela dada como presente, agora era rubra e servia de manto ao corpo. Não pode se despedir. Tinha chegado os policiais, afastando as pessoas e com o criminoso já preso em flagrante, queriam apenas voltar logo a rotina das rondas. Uma mulher atravessando a multidão, grita para soltarem o seu homem, dizendo que o seu feito era apenas ciúmes, que tinha perdido a cabeça por causa dela, repetia isso aos prantos. Caída já aos pés dos guardas, falava que amava aquele homem. Desacreditado com tudo ficou um rapaz ao ouvir essas palavras. Perdeu o seu parceiro e a sua nega.

Dois

Eram dois meninos, um quieto, outro eufórico, ambos sonhadores, cada qual a sua maneira sonhava. Tiveram histórias. Contaram um para o outro. Decidiram construir uma outra juntos. Passaram por maus momentos. Tiveram outros excelentes. Erraram por conversarem pouco, mas nas pequenas palavras algo proveitoso surgia. De repente tudo mudou. A história agora é escrita de outra forma. separados estão os meninos. A vida, a grande mestra da sabedoria, sempre sabe o que faz, seus caminhos são acertados, momentaneamente incompreendidos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Novas histórias?

Era manhã de segunda-feira, abriu os olhos e seu primeiro pensamento retomou o passado. Como pode isto acontecer, era a insistente pergunta. Relutava em esquecer, buscava ajuda dentro de si, em razões que fortalecessem sua razão. Lembrava do novo nome que surgiu e imediatamente se questionava, há força para ir, temos, buscamos isso; os dois. Novamente, era perscrutado por antigas histórias, diferentes do que diz Millan Kundera, pois para este autor não experenciamos os mesmos fatos duas vezes, ele segue o pensamento de Heráclito, não se mergulha duas vezes no mesmo rio. Estamos em constante transformação, nossas vivências serão sempre novas, no máximo, teremos apenas a impressão de semelhança, era isso o que lembrava do escritor e do filósofo. Acordou, levantou-se, tomou café, foi para o trabalho. Sentia-se como o protagonista do filme O Feitiço do Tempo, não pela rotina da semana que exigi de cada um obrigações diárias, antes era a figura de olhos e boca novos que irremediavelmente, ainda que negasse, mostravam-se como uma película reprisada. Um antigo filme preto e branco de narrativa conhecida, bem verdade que olhou e por breves instantes se encantou, durou o tempo exato do tic-tac do relógio. Maior era o pensamento, todos estão interessados em seguir com segurança suas vidas, todos preferem a rotina do dia-a-dia porque através dela alcançaram seus objetivos, todos permanencem no mesmo lugar, todos estão herméticos, ninguém é dado a vôos que enchem os olhos da alma, resguardam-se dos outros, maior, sempre maior é o sonho individual desta geração. Escreve essas palavras na tela do computador da sua casa, já retormou do trabalho, onde cumprimentou os amigos, deu atenção a clientes, participou de uma reunião, se despediu de todos e foi para casa, ancioso por terminar o texto incompleto, que como catarse é feito.

É chegada a hora vespertina, e com ela a rotina de academia, pagamentos, estudos. Antes, preferiu, redigir-se. Busca encontrar o fio condutor desse conto-crônica-biografia da alma, a sua. Lembrou das analogias feitas. Seu rio, sua vida, recentemente, continuamente, passaram por ele corpos, gente de carne, osso e coração. Foi tocado, beijado. Foi... Experimentou coisas novas com pessoas novas. Qual era o gosto? De fruta já mordida. Novos eram os rostos, verdade, de meros desconhecidos, passamos para conhecidos e isso o jogava para o seu quarto-baú de lembranças, para a frente da sua tv e colocado sentado no seu sofá, via que todos traziam a mesma bagagem. Inacreditavelmente, estavam apegados a porta-retratos ou nas mãos havia pastas com planos, programas e projetos pessoais, quando não as duas coisas. E eu me perguntando o que fazer, competir ou conquistar, o que buscam afinal? Sempre amizade. Nada contra. As novas histórias repetem as antigas. Heráclito, meu caro, não desprezo a tua sabedoria, mas ou os deuses conspiram contra ou permaneço em um feitiço, no qual fui aprisionado em um óficio, a de ser roteirista de curtas-metragens.

Caro amigo, me desculpe o tom de descontentamento, apenas amanheci e vi na minha bagagem o meu velho bloquinho de anotações, reli e fiquei com vontade de que as novas histórias fossem vividas com todo o frescor de novidade ou que antigas pudessem ser reescritas. Aqui, meu desabafo.